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Thiago Buzzy, artista 2D profissional na área de games responde 12 perguntas

Autor Charles Moreira | Publicado em June 01, 2012 Veja os Comentários

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Buenas gurizada. Mais uma sexta que chega, finalmente a última deste mês, o que me deixa tremendamente contente, afinal semana que vem recebo o pagamento por mais um mês suado de trabalho, para fazer a alegria dos meus credores. Se sobrar alguma grana, é provável que o post técnico sobre games 2D saia alguns dias mais cedo na próxima semana, pois estarei de folga quinta e sexta, e daí já junta sábado e domingo no embalo e tudo é festa.

Como esta é uma situação que só acontece em raros momentos devido a algum raro alinhamento planetário que deve acontecer a cada 1000 anos, devo aproveitar estes dias para viajar, afinal o tio Charlie aqui também merece algum descanso. “Má bueno”, dado os recados, está na hora de apresentar o convidado desta semana: Thiago Buzzy.

Buzzy é um jovem artista artista de 25 anos, vindo da cidade de Lontras, ali do ladinho de Blumenau, no interior de Santa Catarina. Ilustrador, animador, por vezes dublador, videocaster e conhecedor dos segredos da produção de cerveja, recentemente tornou-se mais um profissional a entrar no mercado de games no cenário nacional com sua arte 2D. Com um traço cheio de estilo, ele vem falar sobre seus projetos pessoais, sua carreira, tecnologia e quais foram suas primeiras impressões sobre  produção de games.

Divirtam-se agora com a entrevista feita com esta figuraça.

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1 – Você desenha, anima, faz quadrinhos e já fez até videocast, o que mostra uma veia artística muito forte. Como começou este interesse por tantas formas diferentes de arte?
TB:
Sou do interior de Santa Catarina, Lontras, e cresci num bairro longe do centro. Meus pais se separaram cedo, e como a arte me interessou, não lembro. Se foi por incentivos de minha mãe, ou sempre foi uma busca pessoal. Quase todo artista responde: “Desenho desde que me conheço por gente”, pra mim não foi diferente; comecei com os livros de colorir e canetinhas hidrocor, com uns 2 anos de idade. Suspeito que foi como uma forma de escapismo.

Quando eu estava no pré-escolar, um garoto da sala desenhou um Superman palito e chamou a atenção de todos. Como um belo invejoso, sempre quis fazer melhor. Dali pra frente, ser melhor da sala, em artes, era coisa que eu fazia com pouco esforço. Desanhava fantasmas e monstros. Lembro de uma estranha fixação por pessoas sendo despidas por ventiladores soprando forte. Camiseta, cueca, calça, e as meias voando. Na quarta-série, tive um colega de classe que desenhava tirinhas violentas, estilo Comichão e Coçadinha, entende? Tinhamos um caderno pautado e faziamos histórias curtas de 3 quadros, durante as aulas chatas. “A terrível morte do skatista”, “Guilhotina”, “Armadilhas”, “Degraus da morte”. Ele criava a maioria das histórias, eu fazia algumas e copiava as dele pro meu caderno, como forma de registro mesmo, mas acho que ele nunca gostou disso.

E depois veio a minha fase Harry Potter, a mais definitiva no meu desenho. Era o que fazia no meu tempo ocioso: ilustrar as cenas dos livros, as capas, imaginar os personagens. Nessa etapa, entra a internet. Para mim, participar de fóruns, visitar sites, conhecer outros fanartists, foi importante, para querer desenhar mais e melhor. Minha geração deve muito aos tutoriais de Photoshop

2 – Você é bem jovem, mas que já possui uma experiência profissional razoavelmente grande. Conte um pouco da sua trajetória:
TB:
O que você quer ser quando crescer: “Desenhista” é o que consta em todos os registros de minhas respostas pra essa pergunta. Mas na hora de escolher uma graduação, foi mais difícil do que pra quem nem sabia o que queria. Tentei pro primeiro ano de Cinema na UFSC, mas acabei entrando na Publicidade e Propaganda na FURB. Como ganhar dinheiro com arte, na realidade em que eu vivia?

Logo no começo da faculdade, consegui um freela em uma editora de livros infantis, pra fazer a capa de um livro do Maicon Tenfen e entrei como estagiário. Fazia animações em Flash dos livros, separando personagens do cenário, e abusando do zoom desnecessário. Ilustrei muita coisa, e aprendi a colorir com o Edemilson Alexandre. Pedi as contas com 4 anos de empresa, e fui me aventurar no mundo do freelance. Ah, e desisti de ser publicitário, trancando a faculdade pra sempre. 

 Fiquei dois anos como freelancer, fiz uns quadrinhos que estão engavetados pro futuro. Voltei pra casa dos meus pais, e aprendi a fazer cerveja, quando eles decidiram se tornar cervejeiros. Fiquei uns seis meses em casa, mas não trabalhar com arte é muito inquietante. Me apaixonei pela Larissa Cabral, começamos a namorar e vim morar em Florianópolis. Vim pra ilha pra trabalhar na produtora de video Midia Effects, desisti novamente do meio publicitário, e fui pra Vesta Gaming.

3 – Você recentemente começou a trabalhar para a indústria de games como artista 2D ilustrando e animando. Como tem sido esta nova experiência para você?
TB:
Com as ilustrações infantis, eu tinha que ser lúdico, comunicar e entreter. Essas preocupações se mantêm na área dos jogos. Os temas são vastos, então acabo estudando muito. É a maior equipe criativa que já trabalhei, é um território fértil pra crescer profissionalmente. Estar em contato com outros artistas, compartilhar conhecimento é muito importante pra mim.

4 – Você não deixa de desenhar no papel, mas que está sempre buscando novas ferramentas digitais, como a cintiq e o ipad, por exemplo. Fale um pouco sobre esta curiosidade em conhecer novas tecnologias:
TB:
Voltei a desenhar no papel mais frequentemente, a maior parte dos meus desenhos nos ultimos 7 anos foram digitais. A praticidade do digital é encantadora, poder redimencionar, recompor, desfazer, escolher a cor em uma paleta imensa… são tantas facilidades! Mas o papel tem sido um melhor professor. Ao encostar a caneta no papel, você tem que saber o que está fazendo, não tem volta, a borracha não é um ctrl+z tão eficaz. 

A Cintiq 12WX, versão portátil do maior sonho de consumo de artistas digitais pelo mundo, comprei juntando todas as economias que tinha. E não consegui me adaptar muito a ela, prefiro as tablets normais. Acabei vendendo ela recentemente. 

O iPad foi inesperado como ferramenta de desenho, o novo modelo, aumentou consideravelmente as resoluções, os programas ficaram mais completos, com layers, efeitos de camada e brushes complexos. Mas o melhor dele está na portabilidade, você tem as ferramentas digitais disponíveis o tempo todo, ótimo pra estudos rápidos de composição. Dá pra exportar PSD e terminar em casa no computador. As canetas stylus são um item fundamental pra melhorar na precisão, ainda mais se você tem dedos de gorila como os meus. A ponta da stylus ainda tem uns 8mm de espessura, mas o zoom resolve pro detalhamento.

5 – Ok, já que entramos no assunto tecnologia: Cintiq vs Ipad 3 – quem ganha esta briga?
TB:
É meio injusto colocar os dois pra brigar, ainda. Mas a Cintiq como ferramenta de trabalho ainda é a mais recomendada. As limitações do iPad pra desenho, ainda são grandes, a única vantagem é a portabilidade mesmo. As Cintiqs são um emaranhado de cabos que você tem que planejar como instalar, mesmo a Cintiq 12WX que é pequena vai ficar acorrentada a seu computador.

Ilustração feita com o iPad3

6 – Você tem vários projetos engavetados de HQs, e recentemente tive a oportunidade de conferir algumas amostras de uma delas. Você tem planos para lançar algo em breve? Qual seria a melhor maneira para lançar um projeto destes atualmente?
TB:
Fico em dúvida, se gosto mais de fazer quadrinhos ou animações, e tenho projeto pras duas mídias. Confesso não saber como viabilizar elas ainda, por que demandam muito tempo e dedicação. E ainda me considero um artista em desenvolvimento, tanta coisa pra aprender! Gostaria de lançar o quadrinho online, gratuitamente.

Depois de ler o Wormworld Saga (http://www.wormworldsaga.com/) do Daniel Lieske no iPad, fiquei muito impressionado pela dinâmica do “infinite canvas”, é muito bom ler quadrinhos só descendo a página.

7 – Seu trabalho parte bastante para a linha mais cartoon. Quais são suas referências para chegar neste tipo de traço?
TB:
Sempre adorei desenhos animados na TV; Coragem o Cão Covarde, Laboratório de Dexter, Vaca e Frango, Bob Esponja… os clássicos Pica-pau, Looney Tunes, Muppets, Hanna Barbera. Muita coisa!

Atualmente gosto muito do estilo dos quadrinhos independentes. São formas mais rápidas de comunicar do que o realista, rola uma identificação maior, e as histórias do meio independente são mais honestas que o mercado mensal de quadrinhos.

8 – Já que estamos falando em estilo de traço e desenho, cite 5 artistas ou estúdios que te fazem dizer “caaaaaaara, meeeeeu… aaaaahhhh meu caraaaaal……o”:
TB:

Mike Mignola:
desde que pus os olhos nos quadrinhos do Hellboy – http://www.artofmikemignola.com/

Scott C.: pela arte nostálgica e infantil dele – http://www.pyramidcar.com/

Robert Crumb: pelos desenhos escrachados – http://www.crumbproducts.com/

Rafael Grampá: no preciosismo do traço – http://furrywater.wordpress.com/ 

Jake Parker: pelo design dos personagens e máquinas – http://www.agent44.com/

9 – Vamos falar um pouco sobre animação. Você já participou de alguns curtas animando, fazendo cenários e até mesmo dublando personagens. Fale um pouco sobre este período do seu trabalho e se você tem projetos para futuras animações:
TB:
Comecei animação como autodidata no Flash, em 2001, fazendo animação pelo prazer mesmo. Postava no Newgrounds, que reunia uma comunidade gigantesca de animadores em Flash do mundo. Lá conheci o trabalho do Adam Phillips (http://bitey.com/), minha maior influência na animação. Ficou mais sério quando fui selecionado pelo Animamundi Web em 2006, com o Esquilo da Árvore Púrpura.

Em 2009, fiz dois freelas de animação pra um americano, Cyrus Oliver, “Glimworm” e “Hawaiian Puppies”. Me esforcei pra fazer tudo, cenário, animações, concepts… Trabalhos suados, mas que compõe meu principal portfolio de animação.

10 – Cada louco com sua mania. Quais são as suas para trabalhar?
TB:
Acostumei a desenhar com podcasts, o Nerdcast foi o primeiro, depois fui conhecendo outros. Mas sempre gostei de ouvir musica clássica, e temas de filmes. Hans Zimmer, Alan Silvestri, John Williams.

Minha mesa é uma bagunça de papel, materiais de desenho, computador, e copos. Muitos copos. Agua, refrigerante e suco. Não costumo beber, por que perco a coordenação motora pra desenhar! Hahahaha.

Acho que o tique mais engraçado é meu Ctrl+z frenético. Desenho uma linha e Ctrl+Z! Desenho novamente, Ctrl+Z! Até achar que ficou boa, o que muitos sugerem que estava identica a primeira tentativa.

11 – Seria interessante ver seus personagens modelados e animados em 3D, você já pensou em se aventurar nesta área?
TB:
Gosto dos meus personagens bidimensionais, não sei se funcionariam em três dimensões. Poderia aprender muito se modelasse, mas não acho as ferramentas 3D muito intuitivas. O Zbrush mudou muito isso, mas ainda me perco nas interfaces.

12 – Buzzy meu velho, chegamos na finaleira e só tenho a te agradecer por ter tirado um pouquinho do seu tempo pra responder a estas perguntas. “Caaaaara, caaara, meeeeu, assim”, o que tu gostaria de dizer pra galera que está começando a desenhar, animar, a fazer quadrinhos ou um pouco disso tudo, e que está em casa, muitas vezes em uma cidade pequena e achando que desenhar não vai levar a nada?

TB:Obrigado pela oportunidade de mostrar um pouco do meu trabalho. O que aprendi pelo trajeto é que a arte é um chamado, uma inquietação, uma necessidade de registrar e comunicar, ela exige dedicação, portanto, se faça disponível. Acredito na Teoria de 10.000 horas Malcolm Gladwell, que concluiu que talento não basta, é preciso trabalhar duro para ser bem-sucedido. “Prática não é aquilo que você faz quando é bom, é o que faz com que se torne bom.”

E é isso, gurizada. Espero que tenham gostado dos trabalhos do Thiago Buzzy e de saber um pouco sobre sua trajetória até chegar ao mundo dos games, mercado este que acompanha sempre por ser um ávido jogador, e que atualmente anda gastando muita munição em Battlefield 3 e matando gigantes e dragões em Skyrim.

Você pode conferir mais sobre ele e acompanhar seu trabalho nos sites:
http://thiagobuzzy.deviantart.com/

http://thiagobuzzy.carbonmade.com/

Hasta luego, indiada!!

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Sobre Charles Moreira

Desenhista, animador, rabiscador e dwarf warrior em Azeroth. Trabalha desde 2008 com produção de games, gosta de uma boa cerveja, um bom churrasco, um chimarrão nos dias frios e de mulher em qualquer dia.

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