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Computação Gráfica: e o mercado?

Autor Ricardo Eloy | Publicado em October 17, 2012 Veja os Comentários

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Olá, amigos!
Esta é minha primeira contribuição para o NimboCG e, antes de começar a escrever estas linhas, fiquei um tempo pensando em qual poderia ser o assunto dela. Afinal de contas, é uma grande responsabilidade chegar a tanta gente, falar para tantas pessoas. Tinha que ser algo de interesse geral, algo que não ficasse só no campo da técnica deste ou daquele software.
Assim, decidi escrever sobre o mercado.
Mas não vou falar apenas, como alguns poderiam esperar, do mercado de ilustrações imobiliárias (também conhecidas como maquetes eletrônicas). Eu gostaria de falar do mercado como um todo, aquele que envolve a todos nós, chamados profissionais da computação gráfica. E creio poder fazer essa “generalização” pelo simples motivo de que as regras de mercado se aplicam a todos, e há milhões de similaridades entre todos os campos que envolvem a CG. Vejamos:

Um mercado novo, feito por pessoas jovens

Para entender o mercado em que estamos inseridos, é importante entendermos algumas coisas antes.
A primeira delas é o fato de este mercado ser muito, muito novo. Por mais que muitos dos que estão lendo este texto sintam que é o contrário, este mercado mal chegou aos 20 anos de existência, e muito menos no Brasil. E isso é muito, muito pouco em termos de mercado.
Mas por que temos a sensação de que esse mercado já deveria ser maduro?
É aí que entram os profissionais. Em sua grande maioria, jovens, na casa dos 20 e poucos anos de idade, simplesmente não têm idade suficiente para lembrar de quando a TV, cinema e publicidade não eram apinhados de coisas feitas em CG, de quando o Photoshop não vendia milhares de revistas nas bancas com suas modelos perfeitas e de pele tão lisa quanto o vidro. Tem-se, assim, a sensação de que esse mercado sempre esteve aí, e se ele sempre esteve aí, como pode ser tão amador, não é mesmo?
Ao mesmo tempo, os clientes não partilham dessa juventude. São pessoas e empresas que estão por aí há mais tempo do que nós, em grande parte, e conheceram seu mercado sem a CG. Isso significa que, para eles, nós somos uma mudança de paradigma, uma nova forma de trabalhar.
Agora, some isso ao fato de que somos vistos como jovens (relativamente inexperientes) que trabalhamos com computadores (aquela maquininha mágica que faz tudo sozinha) e você terá uma ideia do porquê nosso mercado é tão difícil.

E como o mercado pode amadurecer?

Eis a grande pergunta!
Em marketing, temos uma figura muito importante chamada de “valor percebido”. Ele consiste de como o cliente entende e percebe nosso produto, e é resultado direto do ambiente (concorrentes) somado à experiência do cliente. Na minha humilde opinião, é no VP que temos que tentar mexer. Temos que tentar enxergar nosso trabalho e a nós mesmos da mesma forma que nosso cliente nos enxerga, e agregar valor a isso de forma a aumentar o valor percebido por ele.
Obviamente, não existe uma fórmula mágica para isso, e cada micro-mercado tem suas especificidades, mas acredito que algumas regras gerais possam ser aplicadas:

- Adote uma postura profissional

Uma coisa que eu ouço sempre de colegas é que estão cansados de serem vistos pelos clientes como “os meninos do 3D”, aquele pessoal jovem, descolado, sem responsabilidades… Se você quiser ser visto como um profissional de verdade, aja como um. Seja pontual, responsável com o cliente, tenha processos e procedimentos no seu trabalho. Se você é um profissional liberal ou dono de um pequeno escritório, mostre que faz parte de uma engrenagem maior e que tem sua importância dentro dela. Demonstre respeito pelo cliente, sua empresa e seu produto.

- Não faça tudo por dinheiro

Sua mãe já dizia: ninguém respeita quem não se dá o respeito. Prazos existem para serem cumpridos, mas também para dar tempo hábil para a execução de uma tarefa ou job. Para qualquer cliente, é muito cômodo contar que você vai varar noites ou perder fins de semana fazendo aquele job que o cliente deixou para última hora. Mas pagar por isso o devido valor é outra história, não é? Afinal, quem nunca esteve numa situação em que o “cliente” pediu mundos e fundos mas se fez de difícil ao receber o preço? Se você abrir essa porta, acredite, não vai fechá-la tão cedo. O cliente sempre vai querer mais (uma alteração a mais, um dia de prazo a menos, um preço menor, e por aí vai). Aos poucos, o único prejudicado será você, tanto por fazer isso diretamente quanto por perder um cliente porque outro fará isso para ele.
Não estou dizendo que devemos começar uma revolução e nunca mais aceitar jobs difíceis ou varar uma noire trabalhando, veja bem. O que digo é que tudo tem uma contrapartida, e se o cliente precisa de um serviço de urgência, deve pagar (bem) pelo mesmo e não apenas assumir que “é assim mesmo” e exigir que você o faça simplesmente porque é “sua obrigação”.

- Pagando bem, que mal tem?
A mesma história de valor percebido comentada anteriormente sobre o cliente vale também para nós. Seja ao precificar um job ou negociar um salário, o primeiro impulso de todos nós é olhar para aquele número é pensar se é muito ou pouco. Mas a questão que fica é: em relação a quê? Ao negociar seu salário na produtora, por exemplo, você precisa ter claro em sua mente o quanto você precisa para viver confortavelmente e não como um mendigo. Já vi produtoras oferecendo R$ 800,00 de salário para profissionais com alguma experiência (e eles aceitaram!). Da mesma forma, já vi gente cobrando R$ 200,00 por uma ilustração imobiliária. Pergunto: vocês já fizeram essa conta? Conseguem viver com o padrão que almejam com esse dinheiro? Quantos jobs essa pessoa que cobrou R$ 200,00 por uma imagem precisaria fazer em um mês para ter uma entrada digna? Já pensaram nisso?
Assim, voltamos ao tópico anterior: dê-se o respeito. Se você quer ser visto como um profissional de verdade, não aceite a primeira oferta, não abra mão de qualidade só pra fechar um job. Não prostitua-se aceitando qualquer dinheiro pelo seu trabalho. Se você não valoriza o próprio trabalho, que obrigação tem o cliente de fazê-lo?

- Invista em formação

Quando falamos em investir em formação, as pessoas pensam logo em dinheiro. Mas não é bem assim. Investir em sua formação significa várias coisas além, é claro, de fazer cursos. Guarde um tempo do seu dia para estudar e se aprimorar, faça trabalhos pessoais em suas horas vagas, atualize seu porfolio constantemente. A internet está aí pra isso, não apenas para acessarmos o Facebook ou a próxima rede social da moda.

Ouço muitos profissionais dizendo que não têm tempo de estudar pois trabalham demais e talvez esse seja um erro crucial: ao apenas trabalhar e não se atualizar você fica para trás e, lá na frente, não pode mais competir com os outros players do mercado. Se ficar para trás, vai ficando sem trabalho e é obrigado a investir (aí sim, dinheiro vivo) em cursos de reciclagem ou coisas do tipo. Será que essa é uma tática inteligente? Por isso repito: tire uma hora por dia para estudar por conta, se atualizar, se exercitar. É isso que vai mantê-lo na frente na corrida do mercado.

- Seja legal

O Brasil não exatamente ajuda a quem quer permanecer na legalidade. Impostos abundantes, retorno nem tanto,  e lá se vai a ideia de ter seus softwares legalizados. Mas posso dizer a você com todas as letras: é de interesse das empresas de software que você tenha, sim, software legalizado e elas vão tentar ajudá-lo a corrigir essa situação. Não apenas assuma que uma licença é cara: vá atrás e você pode se surpreender. Da mesma forma, a informalidade é outra coisa que mata nosso profissionalismo. Temos uma grande parcela de profissionais trabalhando sem carteira assinada, sem nota fiscal e, consequentemente, sem direitos trabalhistas. Conheci diversos profissionais que trocaram a estabilidade de uma vaga registrada pelo apelo de mais dinheiro dos freelas. É claro que, numericamente, há uma boa diferença no salário mensal, mas essa impressão pode ser falsa.
No Brasil não temos esse hábito, mas é praxe em outros países falar em salário anual (ao invés de mensal), o que permite uma melhor compreensão de quanto você realmente ganha por mês e um melhor planejamento de seu orçamento a longo prazo. Fazendo esse cálculo, chegamos muitas vezes à conclusão de que um salário registrado menor é mais do que aquela grana boa deste ou daquele freela (que não necessariamente serão constantes).
É claro que não estou dizendo que devemos todos abandonar a vida de freelancers e partir para o trabalho assalariado clássico, mas é importante que saibamos exatamente porquê escolhemos essa ou aquela modalidade. E, para aqueles que trabalham em produtoras emitindo nota (ou seja, não são registrados mas são assalariados), pensem também em alguns dos direitos trabalhistas (como férias, por exemplo) como parte do pacote, como parte das obrigações do empregador. Ou vai dizer que não conhece ninguém que passou 3 anos sem férias porque estava sem dinheiro e precisava trabalhar?

Enfim, acho que o que eu quero dizer com tudo isso é: seja profissional. O mercado em que nos inserimos é jovem, feito por jovens, e é imprescindível que aproveitemos esse momento para moldá-lo da forma que queremos que ele seja. Somente assim o outro lado dessa moeda (clientes e empregadores) irão fazer a parte deles. No final, ganharemos todos.
E não é bem isso que queremos?
Um abraço!

Imagens: Getty Images

Sobre Ricardo Eloy

Arquiteto, marketeiro, professor e um apaixonado pela arte 3D desde sempre.

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